quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Formação da Lourinhã

A unidade geológica conhecida como "Formação da Lourinhã" foi objecto de um artigo científico no último volume da revista Ciências da Terra / Earth Sciences Journal, num trabalho de colaboração entre a Universidade Nova de Lisboa e a Universidade de Coimbra, como base para a saída de campo do congresso Strati em 2013.

 Interpretação paleogeográfica da Bacia Lusitaniana durante o Titoniano inferior (ilustração de Simão Mateus) (Mateus et al., 2017)





Afloramentos de Kimmeridgiano superior do membro de Porto Novo no Vale das Pombas: A, corpo de arenito do canal fluvial dentro da planície de inundação e depósitos de crevasse-splay; B, escavação de dinossauros saurópode; C, detalhe de um canal de arenito com cama cruzada mostrando uma ampla extensão de paleocorrentes


A Formação da Lourinhã é uma formação geológica do Jurássico Superior, Kimmeridgiano a Titoniano (155 a 145 M.a.), localizado no oeste de Portugal, conhecido pela fauna fóssil rica, sobretudo de dinossauros, mas também de tartarugas, crocodilomorfos, mamíferos, lagartos, etc.

A região Oeste é das áreas mais produtivas para os dinossauros e outros vertebrados do Jurássico  Europa, nomeadamente para a Formação da Lourinhã, que é contemporânea com a Formação de Morrison, no centro-oeste da América do Norte.
A fase de rifting Jurássico da Bacia Lusitânica criou várias sub-bacias separados por falhas principais. Na área ocidental e central da bacia, a estrutura de Caldas da Rainha separa três sub-bacias com diferentes características de subsidência e de enchimento: Consolação para a oeste, Bombarral-Alcobaça ao noroeste e Turcifal com a sudeste. A sucessão do Jurássico Superior à base do Cretácico exposta nas arribas costeiras localizadas entre Nazaré e Santa Cruz pertence à Sub-bacia da Consolação, enquanto que os afloramentos costeiros entre Santa Cruz e Ericeira expõe unidades da Sub-bacia do Turcifal.




Fósseis do afloramento Porto Batel (unidade Consolação): A, tartaruga; B, preenchimento de pegada de dinossauro; C. Fuersichella bicornis (Sharpe, 1850) com padrão de cor (ML1804); D, recife com corais  (Mateus et al., 2017).


Para enquadrar as paragens num contexto coerente, dá-se destaque e detalhe às unidades da área visitada. A estratigrafia do Jurássico Superior da bacia é bastante complexa e não existe nenhuma proposta totalmente aceita na generalidade, sendo, por isso, apresentada uma revisão de litostratigrafia, sedimentologia, idade e interpretações ambientais. Interpretações sobre o paleoclima, paleogeografia e tafonomia contribuem para uma descrição geral do ambiente onde os dinossauros viveram e para a compreensão das condições para a sua fossilização e preservação.

Esta descrição das localidades e horizontes desenrola-se de norte para o sul, incidindo sobre os vertebrados, sedimentologia e estratigrafia. A primeira paragem é no Kimmeridgiano superior da Consolação que mostra um paleoambiente marinho pouco profundo a deltaico da Formação de Alcobaça, na qual assenta a Formação da Lourinhã. Mais a sul, o forte de Paimogo permite uma vista panorâmica sobre a Fm. da Lourinhã: para o norte estão os membros Praia da Amoreira - Porto Novo (planície de aluvião costeira inferior, incluindo a parte distal e sistemas fluviais sinuosos; Kimmeridgian superior) e o Membro Praia Azul para o sul (aluvião e planície costeira, com três níveis de carbonato transgressivo e faunas salobra-marinhas distintas; Kimmeridgiano superior e base do Tithonian). Em Paimogo encontra-se os locais onde ovos de dinossauro terópode e um esqueleto saurópode foram recolhidos. A paragem no Museu da Lourinhã permite visitar uma das mais importantes coleções de vertebrados do Jurássico superior na Europa. A última paragem, no Porto da Calada, aborda a parte superior do Membro da Assenta da Formação da Lourinhã (sistema fluvial com meandros e com intercalações de carbonatos de origem lagunar e marinha rasa; do Titoniano superior à base do Berriasiano) e Formação Porto da Calada (sistema fluvial meandrico com os níveis de finos de carbonatos estuarinos e intertidais; do Berriasiano), incluindo assim o limite Jurássico-Cretácico.


Paimogo, nível com primeira transgressão marinha (Mateus et al., 2017)

Sub-bacias sedimentares da Formação da Lourinhã (Mateus et al. 2017, baseado em Taylor et al., 2013).

Localidades de Paimogo e Caniçal com indicação das transgressões marinhas (Mateus et al. 2017)






Referência completa:
Mateus, O., Dinis J., & Cunha P. P. (2017).  Lourinhã Formation: Upper Jurassic to Lowermost Cretaceous of the Lusitanian Basin, Portugal - landscapes where dinosaurs walked. Ciências da Terra / Earth Sciences Journal. 19(1), 75-97.  PDF

segunda-feira, fevereiro 12, 2018

Os vertebrados fósseis do Algarve triásico

Novo estudo sobre os vertebrados triásicos do Algarve dá duas novas revelações: 1) apresentam-se os primeiros fósseis de placodontes em Portugal e 2) quase todo o Grés de Silves é de idade Carniana (227 a 237 Ma).
A investigação resulta das campanhas de campo da Universidade Nova de Lisboa e dos trabalhos de Mestrado em Paleontologia de Hugo Campos sobre os vertebrados do Triásico algarvio, com apoio da Câmara Municipal de Loulé. O texto foi publicado no livro Loulé: Territórios. Memórias. Identidades lançado a semana passada.

Referência:
Mateus, O., & Campos H. (2018).  Loulé há mais de 220 Milhões de anos: os vertebrados fósseis do Algarve triásico. Loulé: Territórios. Memórias. Identidades. 378-385.: Museu Nacional de Arqueologia | Imprensa Nacional PDF

E aqui replica-se o texto integral do artigo:


Loulé há mais de 220 Milhões de anos: os vertebrados fósseis do Algarve triásico

Octávio Mateus e Hugo Campos
  1. OS TESOUROS ESCONDIDOS NO GRÉS DE SILVES

O famoso Grés de Silves é um tipo peculiar de arenito e argilito avermelhados com o qual o Castelo de Silves e muitas outras construções históricas do barrocal algarvio foram construídas. O termo Grés provém do francês grès, um sinónimo de arenito, uma rocha sedimentar composta por areia consolidada, compactada e naturalmente cimentada. Este arenito é mais resistente que os arenitos Miocénicos amarelados típicos das arribas figuradas em todos os postais turísticos do Algarve, e mais fácil de escavar e construir do que os xistos das serras do Caldeirão e Espinhaço de Cão. O Grés de Silves foi por isso o material de eleição do Castelo de Silves construído ao longo de vários séculos.
O termo Grés de Silves é criado em 1887 pelo geólogo suíço Paul Choffat para uma formação geológica do Triásico de Portugal, composta sobretudo por estes argilitos e arenitos avermelhados. Pela sua composição de fósseis e posição relativa a outras camadas, desde cedo se propôs que o Grés de Silves seria de idade triásica. São os fósseis recolhidos neste Grés de Silves que são alvo deste texto.

1.1 Triásico

O Triásico é um período da história da Terra que começou há cerca de 252 milhões de anos e terminou há 201. Este é o primeiro período da Era Mesozóica, conhecida por ser aquela durante a qual os dinossauros surgiram e se espalharam pelo globo, seguindo o período Pérmico e sendo seguido pelo Jurássico.
Foi no período Triásico que vários grupos de animais vertebrados bem-sucedidos surgiram e se diversificaram, alguns deles sobrevivendo até aos dias actuais. Entre eles estavam não só os dinossauros, como pterossauros (répteis voadores aparentados com os dinossauros), ictiossauros (répteis marinhos com corpos semelhantes aos dos golfinhos), lepidossauros (grupo que inclui cobras, lagartos e anfisbenas), tartarugas, os antepassados dos crocodilos e mamíferos.
A Terra era muito diferente do que é actualmente. Os continentes estavam juntos num único supercontinente chamado Pangeia rodeado pelo grande oceano Pantalassa. O clima global era quente e árido sobretudo na parte central desta massa continental. Estas condições favoreceram a oxidação de ferro que dá a cor avermelhada típica do Grés de Silves.
O Triásico começa aos 252 M.a. após a maior extinção em massa da história da Terra, que marcou o final da Era Paleozóica, e termina com outro grande evento de extinção na passagem para o período Jurássico, aos 201 M.a.. Esta extinção teve um grande impacto na vida marinha e continental, extinguindo vários grupos de organismos, alguns dos quais subsistiam desde o Paleozóico.
Em Portugal, os únicos fósseis de vertebrados que se conhecem deste período foram achados nos concelhos de Loulé e de Silves.

1.2 Os primeiros passos na história da paleontologia no Algarve
A história da paleontologia do Algarve data desde os trabalhos do naturalista Charles Bonnet (1816-1867), fundador da Comissão Geológica e que viveu em Loulé. Em 1846 e 1847, Bonnet percorre o Algarve, procedendo a numerosas observações de caráter topográfico, geográfico e geológico e recolhendo fósseis e amostras de minerais. Bonnet refere a existência de amonites e belemnites na Serra de Alfeição, Nexe, perto de Loulé, e conchas miocénicas em Lagos, Vila Nova de Portimão, Ferragudo, Mexilhoeirinha e Albufeira. Cita ainda a existência de fósseis “Cardium edule” e Mytilus em Albufeira e entre Lagos e Porto de Mós (Bonnet, 1850: p. 142).
O primeiro trabalho de fundo sobre a paleontologia do Algarve chega de Jorge Cotter (1845-1919) que em 1877 estudou a fauna miocénica.
O primeiro trabalho de paleontologia de vertebrados do Algarve vem pelo punho de um dos grandes nomes da geologia portuguesa, o geólogo suíço Paul Choffat, que numa memória de 1885 relatou a ocorrência de alguns géneros de peixes e uma tartaruga fóssil da Mexilhoeira e parte do rostro de um Machimosaurus hugii de Malhão, uma espécie de crocodilomorfo marinho de grandes dimensões que viveu durante o Jurássico (Choffat, 1885). Choffat também trata a geologia do Grés de Silves.
A partir dos anos 60, Miguel Telles Antunes descreve uma série de fósseis miocénicos, como dentes de Tomistoma cf. lusitanica (género do falso gavial) de Cerro das Mós, Lagos, em 1961; em 1979, vários vertebrados, incluindo um sirénio (possivelmente um dugongo) e baleias de Olhos de Água; em 1981, peixes e mais dentes de Tomistoma cf. lusitanica na Praia Grande (Albufeira); e em 1986, descreveu vários mamíferos plistocénicos de Goldra (Loulé), Algoz (Silves) e Morgadinho (Tavira), entre os quais se incluem um javali, um equídeo, um hipopótamo, cervos, lagomorfos (grupo das lebres e coelhos), soricídeos (grupo dos musaranhos), talpídeos (grupo das toupeiras) e vários roedores  (Antunes, 1961; Antunes, 1979; Antunes et al., 1986a; Antunes et al., 1986b; Antunes et al., 1986c). Os dentes de tubarões, peixes ósseos e crocodilos do Miocénico (15 a 20 M.a.) das Praias de Sesmarias, Praia Grande e Arrifão indicam águas mais quentes que as actuais.
Ainda em matéria de paleontologia de vertebrados é de destacar a ocorrência de pegadas e raros ossos de dinossauros do Cretácico Inferior de Porto de Mós (Lagos), Praia da Salema e Praia Santa (Santos et al., 2013).

1.3 Estudo dos vertebrados do Triásico do Concelho de Loulé
Desde os trabalhos dos paleontólogos franceses Denise Russell e Donald Russell em 1977, por indicação do paleontólogo Miguel Telles Antunes, e da tese de M. Christian Palain em 1975 que se conhece a existência de material de anfíbios no Triásico do Algarve, sobretudo em São Bartolomeu de Messines, que foi atribuído a anfíbios estegocéfalos, sem nenhuma atribuição a nível genérico ou específico.
Em 1979 e 1980 o alemão Thomas Schröter fez estudos de geologia da Rocha da Pena no centro do Algarve, no concelho de Loulé, e recolheu alguns ossos que permitiu Florian Witzmann e Thomas Gassner da Universidade de Humboldt de Berlim publicar em 2008 a ocorrência de metopossaurídeos e mastodonssaurídeos, os primeiros em Portugal. As nossas visitas e trabalho de campo da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa ocorreram em Dezembro de 2008, Setembro de 2009, Junho de 2010, Junho de 2011, Junho de 2016 e Maio e Junho de 2017.

1.4 As jazidas
A jazida principal de vertebrados do Triásico Superior de Portugal encontra-se perto da aldeia de Penina, no sopé da Rocha da Pena, concelho de Loulé, e no centro geográfico do Algarve. Daí provêm numerosos fósseis numa jazida quase monoespecífica, dominada por Metoposaurus algarvensis. A concentração de ossos é muito elevada, cerca de dois crânios por cada metro quadrado, e já foram identificados pelo menos dez indivíduos distintos, embora se reconheça que o número poderá facilmente ascender a duas dezenas, fazendo desta jazida a única bonebed em Portugal, anglicismo usado para referir uma camada repleta de ossos fósseis. Além do Metoposaurus, ocorrem raros bivalves e escamas de peixe ganóides, e uns metros acima, ossos de fitossauros e placodontes  (figura 1).
Além da jazida da Penina, a mais relevante cientificamente, reportamos ainda a ocorrência de vertebrados fósseis do Triásico em São Bartolomeu de Messines, Vale Vinagre, Berbeleja e Barragem de Fuzeiros.

Figura 1. Aspecto da escavação da jazida da Penina em 2010.


 2. OS VERTEBRADOS DO TRIÁSICO DO ALGARVE

2.1 O Metoposaurus algarvensis

O Metoposaurus algarvensis é um anfíbio do grupo dos temnospôndilos, predadores extintos com aparência semelhante à de uma salamandra, mas com comprimentos que podiam atingir mais de dois metros. Os temnospôndilos, que teriam um estilo de vida semelhante ao dos crocodilos e eram comuns em ambientes aquáticos, surgiram ainda antes do período Triásico, na Era Paleozóica,  e extinguiram-se quase todos no final deste período, excepto um pequeno grupo que conseguiu sobreviver até finalmente desaparecer no Cretácico Inferior, mais de cem milhões de anos mais tarde.
Os fósseis da Penina são claramente do género Metoposaurus, mas distintos dos conhecidos na Polónia, Marrocos, França e Alemanha, o que permitiu erigir uma nova espécie para a ciência, em 2015. Recebeu o nome Metoposaurus algarvensis, encontrada apenas no concelho de Loulé e nomeada em homenagem ao Algarve (figura 2). Esta espécie de crânio achatado vivia em corpos de água como charcos e lagos, os quais eram amiúde severamente afectados por grandes períodos de seca que os reduziam gradualmente, confinando os Metoposaurus que se concentravam e onde acabavam por morrer em massa. Esta situação resultou numa grande e excepcional concentração de ossos, com mais de dez indivíduos, que foi encontrada na Penina.
Sendo anfíbios, os Metoposaurus eram muito dependentes de corpos de água e porventura não teriam uma musculatura devidamente preparada para deambular e procurar alternativas de sobrevivência durante as épocas de seca, o que poderá explicar as concentrações de animais que morreram nas jazidas da Penina mas também da Polónia, Estados Unidos e Marrocos.

Figura 2. Reconstrução artística do anfíbio do Triásico do Algarve, Metoposaurus algarvensis, por Joana Bruno

2.2 O fitossauro

Os fitossauros eram répteis semi-aquáticos, dos maiores predadores do Triásico, e que possivelmente se alimentavam de animais como o Metoposaurus algarvensis. Com crânios e rostros alongados e corpo couraçado, os fitossauros eram fisicamente muito semelhantes a crocodilos e teriam estilos de vida parecidos. No entanto, os fitossauros não são aparentados aos crocodilos, sendo que a diferença mais notável é a posição retraída das narinas: os crocodilos têm as narinas na parte anterior do rostro enquanto que os fitossauros tinham-nas numa posição recuada, quase acima dos olhos, o que lhes permitia respirar com quase todo o corpo submerso (figura 3).
Os fitossauros viveram apenas durante o Triásico, em várias regiões do globo, mas na Península Ibérica o único fóssil de fitossauro que se conhece é uma mandíbula e um conjunto de dentes encontrados no concelho de Loulé, perto da concentração de Metoposaurus. Até à data não se sabe a espécie de fitossauro deste exemplar, mas parece próxima de Nicrosaurus.
O nome fitossauro significa “lagarto planta”, pois inicialmente pensava-se que seriam animais herbívoros, o que rapidamente se provou errado pois seriam carnívoros e piscívoros. O exemplar de Loulé possui inclusivé alguns dentes serrilhados semelhantes aos de dinossauros predadores.
O fóssil foi descoberto durante as escavações em 2010 e publicado na revista científica de paleontologia de vertebrados, Journal of Vertebrate Paleontology (Mateus et al., 2012).

Figura 3. Reconstrução artística de fitossauro do Algarve. Ilustração por Joana Bruno.

2.3 O placodonte

Os placodontes são um grupo de répteis aquáticos extintos, pertencentes ao grupo Sauropterygia, que viveram durante o Triásico. A maioria dos placodontes viviam no mar, em águas pouco profundas, alimentando-se de moluscos que esmagavam com seus grandes dentes planos. Estes animais são tipicamente divididos entre placodontes sem carapaça e com carapaça. Esta era constituída por placas ósseas, ou osteodermes, que lhes dava uma aparência semelhante à das tartarugas mas com as quais não são aparentados, embora seja um caso curioso de evolução convergente. Ao contrário das tartarugas, as carapaças dos placodontes tinham osteodermes muito mais numerosas, na ordem das centenas, de menor tamanho, em múltiplas fiadas (e apenas 3 nas tartarugas), não estando fundidas às costelas.
Nos concelhos de Loulé e de Silves foi recolhido um grande número destas osteodermes. A sua configuração é única, pensando-se que pertençam ao género Henodus devido à forma hexagonal, plana, alongada e sem ornamentação. Além disso, o Henodus não tinha os enormes dentes típicos dos demais placodontes e, de facto, não foram descobertos nenhuns dentes, o que seria de esperar caso se tratasse de outra espécie de placodonte. O Henodus é o único placodonte que vivia em águas salobras, ao invés de viver no mar, e que se alimentava por filtragem de pequenos organismos que se encontram na água e substrato lodoso, tal como fazem os flamingos hoje.

2.4 Implicações para a determinação da idade geológica

A idade geológica do Grés de Silves tem sido debatida desde os tempos de Paul Choffat, assumindo-se uma idade triásica, por contexto geológico e ocorrência de fósseis do Jurássico Inferior estratigraficamente acima.
Os fósseis de vertebrados são porventura os que poderão indicar a idade de forma mais precisa. O género Metoposaurus está restrito ao Carniano e Noriano (237 a 208 M.a.). A transição do Carniano superior e Noriano inferior está aos 227 M.a. Outra ocorrência útil para datação é a do réptil sauropterígio Henodus que tem uma distribuição cronológica restrita ao Carniano inferior, 235 a 228.4 milhões de anos.  Os fósseis de Henodus ocorrem na maioria do Grés de Silves, indicando que a maioria da deposição desta formação é relativamente restrita no tempo e possivelmente Carniana.

3. DO ESTUDO À EXPOSIÇÃO
A equipa de paleontólogos que estudam os vertebrados do Triásico do Algarve é internacional, liderada por um de nós (OM), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-UNL) e colaborador do Museu da Lourinhã, Stephen Brusatte da Universidade de Edinburgh (Reino Unido) que liderou o estudo do Metoposaurus, Richard Butler, da Universidade de Birmingham (Reino Unido), Sebastien Steyer do Museu de História Natural de Paris, Hugo Campos, estudante de Mestrado em Paleontologia da Universidade Nova de Lisboa e em associação com a Universidade de Évora, Miguel Moreno-Azanza da Universidade Nova de Lisboa, e Jessica Whiteside da Universidade de Southampton.
O estudo foram financiados pela National Science Foundation, Fundação Alemã de Investigação, Jurassic Foundation, CNRS, Columbia University Climate Center e Chevron Student Initiative Fund e com grande apoio da Câmara Municipal de Loulé. Apoio adicional foi fornecido pela Câmara Municipal de Silves e Junta de Freguesia de Salir. A escavação decorreu com estudantes de paleontologia da Universidade Nova de Lisboa.
A excelente conservação e articulação dos espécimes, a novidade científica com descrição de uma espécie única, o elevado potencial para a recolha de novos vestígios, a quantidade dos achados, e a sua idade triásica faz desta jazida uma das mais importantes na paleontologia de vertebrados de Portugal. Os estudos paleontológicos prosseguem com a coordenação científica da Universidade Nova de Lisboa e o entusiástico apoio pelo executivo e equipa da Câmara Municipal de Loulé.


Figura 4. Processo de preparação do crânio de Metoposaurus algarvensis (fotografia por Nury Lopez).

Após a preparação laboratorial no Museu da Lourinhã (figura 4) e na FCT-UNL, o Metoposaurus algarvensis e o fitossauro estão em exposição no Museu Nacional de Arqueologia, patente desde o passado dia 21 de Junho de 2017 na galeria poente do Museu Nacional de Arqueologia, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, como parte da exposição monográfica "Loulé. Territórios, Memórias e Identidades" (figura 5). O ponto de partida da exposição é dedicado ao apontamento "Loulé há mais de 220 milhões de anos" onde se destacam os achados paleontológicos. Acompanhados por ilustrações de Joana Bruno, apresentam-se alguns dos resultados de seis anos de escavações paleontológicas: dois crânios (27 e 45 cm de comprimento, sendo um deles o espécime holótipo, isto é, o exemplar com o qual se estabeleceu uma nova espécie e que recebeu o código FCT-UNL 600) e uma mandíbula (52,5 cm) de Metoposaurus algarvensis e uma mandíbula (45 cm) e dentes de fitossauro.

Figura 5. Núcleo expositivo dedicado aos achados paleontológicos da região de Loulé. Fotografia por Nathaly Rodrigues.


4. BIBLIOGRAFIA
ANTUNES, M. T. (1961) - «Tomistoma lusitanica, Crocodilien du Miocéne du Portugal». Revista da Faculdade de Ciências de Lisboa. 9:5-88.
ANTUNES, M. T. (1979) - «Vertebrados miocénicos de Olhos de Água (Algarve), interesse estratigráfico». Boletim do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico da Faculdade de Ciências, 16(1): 343-352.
ANTUNES, M. T., JONET, S., & NASCIMENTO, A. (1981) - «Vertébrés (crocodiliens, poissons) du Miocène marin de l'Algarve occidentale». Ciências da Terra, 6:9-38.
ANTUNES, M. T., MEIN, P., NASCIMENTO, A., & PAIS, J. (1986a) - «Le gisement pleistocene de Morgadinho, en Algarve». Ciências da Terra, 8:9-22.
ANTUNES, M. T., MANUPPELLA, G., MEIN, P., & ZBYSZEWSKI, G. (1986b) - «Goldra: premier gisement karstique en Algarve, faune et industries». Ciências da Terra, 8:31-42
ANTUNES, M. T., AZZAROLI, A., FAURA, M., GUERIN, C., & MEIN, P. (1986c) - «Mammiferes pleistocenes de Algoz, en Algarve: une revision». Ciências da Terra, 8:73-86.
BRUSATTE, S.L., BUTLER, R.J., MATEUS, O. & D STEYER, J.S., (2015) - «A new species of Metoposaurus from the Late Triassic of Portugal and comments on the systematics and biogeography of metoposaurid temnospondyls». Journal of Vertebrate Paleontology, 35(3):e912988.
CHOFFAT, P. (1885) - «Recueil de monographies stratigraphiques sur le système crétacique du Portugal». Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal.
DELGADO, J. F. N. (1908) - «Système silurique du Portugal: étude de stratigraphie paléontologique». Serviços Geológicos de Portugal, 1-275.
MATEUS, O., BUTLER, R.J., BRUSATTE, S.L., WHITESIDE, J.H. AND STEYER, J. S. (2014) - «The first phytosaur (Diapsida, Archosauriformes) from the Late Triassic of the Iberian Peninsula». Journal of Vertebrate Paleontology, 34(4):970-975.
PAIS, J., LEGOINHA, P., ELDERFIELD, H., SOUSA, L., & ESTEVENS, M. (2000) - «The Neogene of Algarve (Portugal)». Ciências da Terra, 14:277-288.
SANTOS, V. F., CALLAPEZ, P. M., & RODRIGUES, N. P. (2013) - «Dinosaur footprints from the Lower Cretaceous of the Algarve Basin (Portugal): New data on the ornithopod palaeoecology and palaeobiogeography of the Iberian Peninsula». Cretaceous Research, 40:158-169.
WITZMANN, F. & GASSNER, T. (2008) - «Metoposaurid and mastodonsaurid stereospondyls from the Triassic-Jurassic boundary of Portugal». Alcheringa 32:37–51.




sábado, fevereiro 10, 2018

O Museu da Lourinhã mudou e agora conta a história do Atlântico




O Jornal Público divulgou a nova exposição do Museu da Lourinhã, num excelente trabalho jornalístico por Teresa Serafim e Nuno Ferreira Santos, que aqui replicamos:

O Museu da Lourinhã mudou e agora conta a história do Atlântico


Tem novas peças para mostrar ao público desde o início de Fevereiro, todas contribuem para percebermos melhor como aconteceu a abertura do Atlântico.

TERESA SERAFIM
9 de Fevereiro de 2018, 7:45





Octávio Mateus com os ovos de dinossauro encontrados em 1987

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Octávio Mateus com os ovos de dinossauro encontrados em 1987 NUNO FERREIRA SANTOS
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O sítio é o mesmo. Não há como confundir o Museu da Lourinhã mesmo no centro da vila. Afinal, era lá que estavam muitos fósseis de dinossauros da Lourinhã. Mas as aparências iludem e há uma nova história a ser contada. Com a abertura do Dino Parque – Parque dos Dinossauros da Lourinhã, muitos dos fósseis “migraram” para lá. Portanto, no museu na vila o percurso é outro desde 3 de Fevereiro: conta agora como aconteceu a abertura do Atlântico. Há também fósseis e réplicas que vamos poder observar pela primeira vez no museu.
Este edifício não foi construído para ser um museu. Em tempos, foi um tribunal. Como ficou livre, um grupo de amadores que fazia espeleologia, entre os quais o paleontólogo amador Horácio Mateus, ocupou-o. Acabou por abrir em 1984 pelas mãos da associação Grupo de Etnologia e Arqueologia da Lourinhã. Ao todo, tem três colecções: a de paleontologia, arqueologia e a de etnografia. Por ano, tem cerca de 25 mil visitantes.





Agora houve mudanças e o museu tem outra narrativa. “O que é que temos para mostrar que não sejam os dinossauros da Lourinhã? Pensámos na abertura do Atlântico. Toda a investigação que fazemos pelo mundo fora tem uma história transversal: a abertura do Atlântico. Até os próprios dinossauros da Lourinhã estão relacionados com isso”, conta-nos o paleontólogo Octávio Mateus sobre a escolha da nova história. É ele quem nos vai guiar por uma viagem com milhões de anos. É a nova viagem do museu.
Antes da história propriamente dita, são mencionadas (e explicadas) na exposição duas teorias: a da tectónica de placas e a teoria darwiniana da evolução das espécies. Vamos precisar delas para perceber melhor a abertura do Atlântico. Iniciemos então a viagem e comecemos no Triásico, período geológico entre há 250 e 200 milhões de anos. “O Atlântico começou a abrir-se durante o Triásico na nossa costa portuguesa até à Gronelândia”, relata Octávio Mateus. O supercontinente Pangeia começou a rasgar-se e a criar bacias sedimentares. É nestas bacias que vamos encontrar fósseis. Aliás, foi no Triásico que surgiram os dinossauros.
Nas expedições científicas na Gronelândia e no Algarve, lideradas por Octávio Mateus, descobriram-se alguns desses fósseis. Alguns podem ser vistos pela primeira vez no museu. Há o fóssil de uma mandíbula do Metoposaurus algarvensis (um anfíbio gigante que podia atingir os dois metros e faz lembrar uma salamandra), que foi encontrada no Algarve. Há ainda o crânio original de um prossaurópode, um antepassado dos dinossauros saurópodes, assim como ossos de um fitossauro, ambos da Gronelândia.
Passemos para o Jurássico, entre há 200 milhões e 145 milhões de anos. “No Jurássico Inferior e Médio era notório que em Portugal tínhamos um mar profundo. Basicamente, todos os sedimentos que temos do Jurássico Inferior e Médio eram marinhos”, continua a explicar. Portanto, na exposição temos ictiossauros e plesiossauros.





Mas o paleontólogo guarda o melhor para o Jurássico Superior, quando o Atlântico ainda não era um oceano, havia uma série de ilhas e o que é agora Portugal e a Terra Nova já se separavam. No museu já estiveram expostos os ovos de Lourinhanosaurus antunesi encontrados na praia de Paimogo em 1993, cuja descoberta foi revelada ao mundo em 1997 e fez sensação. Agora está exposto pela primeira vez um outro bloco de ovos de Lourinhanosaurus antunesi encontrados nas arribas da praia da Peralta, também na Lourinhã, em 1987. “Temos mais de uma centena deles”, diz com entusiasmo o paleontólogo. “Estes estão mais bem preservados [do que os anunciados em 1997].” Nestes ovos não há embriões.
No Cretácico há mais surpresas trazidas pelo projecto Paleoangola, em Octávio Mateus participa. Mas, antes, o paleontólogo adianta que neste período (entre há 145 milhões e 65 milhões de anos) houve dois grandes eventos: passou a haver um fundo oceânico, ou seja, nasceu o oceano Atlântico; e a abertura do Atlântico Sul, com a separação entre a América do Norte, a América do Sul e África. Depois, lá nos mostra peças de Angola expostas pela primeira vez no museu: há uma réplica de um crânio do mosassauro Angolasaurus bocagei, um grande predador marinho contemporâneo dos dinossauros; uma amonite; e vértebras e costelas do plesiossauro Cardiocorax.




Por fim (nesta história), há 65 milhões de anos (no Cretácico) deu-se a extinção de grande parte dos dinossauros. E o museu tem agora uma secção de estratos de transição desde o Cretácico até ao Paleogénico (entre há 65 milhões e 23 milhões de anos). “Temos aqui uma rocha que testemunha a extinção dos dinossauros. Esta também é a primeira vez que a expomos.” A peça geológica é de Stevns Klint, na Dinamarca, e foi oferecida ao museu por um coleccionador dinamarquês. Esse foi um dos locais em que o geólogo Walter Alvarez encontrou irídio (elemento químico presente nos meteoritos) e assim pôde apoiar a sua hipótese de que os dinossauros se tinham extinguido devido à queda de um meteorito no Iucatão, no Golfo do México. Há ainda outra hipótese que diz que a extinção dos dinossauros foi causada pela erupção de um megavulcão no Decão (Índia). “Independentemente da causa, esta rocha testemunha esse momento”, salienta Octávio Mateus.
Por enquanto, termina aqui esta viagem, mas já há planos para que continue em breve: haverá ainda a história de outros tempos mais recentes. O trabalho de investigação no museu também continua. Numa sala onde estão estudantes, vê-se um placard com vários artigos científicos de 2017, como o dos ovos de crocodilos mais antigos do mundo. Outra das actividades do museu é o voluntariado. Micael Martinho, de 21 anos, é um dos voluntários e trabalha atentamente no Laboratório de Paleontologia do museu repleto de fósseis. Frequenta o 12.º ano e também ele, um dia, quer ser paleontólogo. Nos últimos tempos, até já descobriu um fóssil e contribuiu para este extenso património de dinossauros
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